O bestseller mundial de Dan Brown lançado em 2005, O Código da Vinci, levantou diversas polêmicas sobre a Igreja Católica, principalmente a respeito da Prelazia da Santa Cruz e Opus Dei. O livro, que no ano seguinte virou filme, ganhou atenção por não deixar claro a ficção e a verdade, gerando críticas de membros da Igreja por produzir uma imagem distorcida da Prelazia para o grande público.
As polêmicas levantadas com o livro e o filme voltou à atenção do público e da mídia para o Opus Dei. Como o caso do jornalista português Rui Pedro Antunes, que publicou o livro “Opus Dei: eles estão entre nós”. Rui procura expor certas práticas como os supostos castigos físicos, as ideologias políticas e a desvalorização da mulher que, segundo ele, são impostas aos chamados numerários (nomenclatura dos membros da Prelazia).
O livro de Rui faz um apanhado das principais críticas sofridas pelo Opus Dei, para isso ele utiliza testemunhos de ex-membros, em sua maioria de forma anônima, como forma de exemplificação. A investigação procura revelar, o que o autor chama de obscuridade da Prelazia, que por vezes é comparado a maçonaria.
O tratamento da mulher
No Opus Dei não existem diferentes categorias de membros, mas modos diversos de viver uma mesma vocação de acordo com as circunstâncias pessoais de cada um. Uma dessas formas é através da dedicação integral e celibatária, ou seja, membros que escolhem permanecer solteiros e morar nos Centros do Opus Dei disponíveis aos trabalhos apostólicos e para a formação dos demais fiéis. Esses são os chamados numerários.
No caso das mulheres, o seu trabalho consiste em cuidar de serviços domésticos como a limpeza e o preparo das refeições. De acordo com Rui esse “é um trabalho inferior e as mulheres se tornam verdadeiras empregadas dos homens que mandam na Prelazia”.
O assessor de imprensa do Opus Dei no Brasil, Roberto Zanin, explica que essa diferença de funções é fruto da vontade que o fundador tinha de ter um ambiente familiar. “São Josemaria Escrivá não queria que o Opus Dei fosse como um quartel comandado apenas por homens e nem como um convento comandado apenas por mulheres. Então, para que tenhamos um ambiente familiar, foram criadas essas formas de vivência do carisma da Prelazia”.
Essas formas de vivência são chamadas de vocações, conceito esse muito utilizado pela Igreja que significa o modo que cada indivíduo é chamado a viver levando em conta suas características e a vontade de Deus. “Todo aquele que pretende se tornar membro do Opus Dei passa por um período de discernimento vocacional, no qual ele é acompanhado por um diretor espiritual e participa de cursos para conhecer a Prelazia a fundo antes de tomar uma decisão, por isso toda mulher que escolhe ser uma numerária auxiliar fez isso por ter certeza que essa é sua vocação”, afirma Roberto.
Os castigos corporais
Um dos pontos mais polêmicos do filme O Código da Vinci retrata o vilão, um suposto monge do Opus Dei, auto flagelando-se com um chicote. A cena repleta de sangue deixa a dúvida do que é real e do que é ficção. De acordo com Rui, a cena retratada no filme é bem comum dentro dos muros do Opus Dei, como dizia o próprio fundador em seu livro Caminho (208): “Bendita seja a dor. Bendita seja a dor, santificada seja a dor… Glorificada seja a dor!”
As práticas corporais são comuns nas principais religiões ao redor do mundo. Geralmente essas são aplicadas como ritos de iniciação, como na circuncisão dos judeus, ou como forma de buscar o autocontrole e a aproximação de Deus, como no caso do catolicismo onde os fiéis buscam unir o incomodo das mortificações ao sacrifício de Cristo na cruz.
“No Opus Dei, os numerários têm incluído na sua rotina de oração o uso do cilício – corrente de ferro para prender ao corpo - por duas horas ao dia e são feitas algumas orações com uso de chicotes de borracha. Entretanto, a diferença entre essas práticas e o filme é que nenhuma delas gera feridas, mas somente incomodam”, afirma Roberto.
A Igreja Católica desde o Concílio Vaticano II condena veementemente toda prática de auto flagelação. No entanto, alguns fiéis radicais permanecem com essas práticas, como o caso dos rituais feitos por alguns fiéis durante a Semana Santa no vilarejo de San Matias nas Filipinas. Entre as práticas estão a crucificação de fiéis e o corte do próprio corpo.
Outras práticas de renúncia são defendidas pela Igreja, como a mortificação e a ascese. A mortificação consiste na privação de algum conforto ou de algum prazer alimentar como forma de oferecer a Deus, já a ascese é alguma prática física com o mesmo objetivo, como, por exemplo, tomar banho gelado ou rezar de joelhos.
“Nós somos criticados por uma prática que é comum a todas as religiões e a toda Igreja Católica. Grandes homens do nosso tempo como São João Paulo II e São Pio de Pieltrelcina faziam uso do cilício e de mortificações do tato. As pessoas ficam impactadas ao saber disso pois não sabem lidar com a dor e se esquecem de todo o sofrimento de Cristo na Cruz”, afirma Roberto.
Experiência
Juliana Trindade é estudante de Engenharia Química da Universidade de São Paulo e numerária do Opus Dei há três anos. Ela conheceu a Prelazia através de uma amiga que lhe apresentou uma moradia universitária, quando ela ainda estudava na Universidade Estadual do Rio de Janeiro.
“Eu me encantei pelo ambiente alegre de família e pela coerência das pessoas. Na residência fiz grandes amizades e conheci pessoas incríveis que tinham como centro da sua vida Jesus Cristo. Eu me entreguei a Deus no Opus Dei porque quis. Na Obra nunca me impuseram nada, sempre fui e sou livre para tomar as minhas decisões”, conta Juliana.
Apesar de ter assistido O Código Da Vinci antes de conhecer a Prelazia, Juliana diz não ter associado à obra de Dan Brown a algo real, pois, segundo ela, o que é passado ali é nitidamente um absurdo. “Talvez o filme tenha de fato influenciado a imagem da Obra, mas qualquer pessoa com um pouco de bom senso percebe que não passa de uma ficção”, afirma.
Já Roberto acredita que a obra de Dan Brown não é de todo negativo para a imagem da Prelazia. “No início O Código Da Vinci foi bem prejudicial para a Prelazia, mas hoje percebemos que muitas pessoas que participam conosco vieram devido a curiosidade que o filme e o livro geraram. Para aqueles que vieram nos conhecer foi bom para que percebessem que nós não temos nada de secreto, mas somos sim bem discretos, pois nosso carisma está na santificação diária. E também puderam descobrir que o Opus Dei não tem monges como no filme”, conta enquanto ri.
Por Vicente Alves



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