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Moda e Apropriação Cultural: O que a Indústria Cultural tem a ver com isso?


Acusações de apropriação cultural tem recheado jornais, TV, e a internet nos últimos meses. O caso da menina branca abordada no metrô por usar um turbante, o caso do bumerangue – que custa cerca de 06 mil reais – produzido pela Chanel, e duramente criticado por aborígines australianos, são exemplos da movimentação que o assunto vem causando. Na internet, a proporção que os casos ganham são amplamente potencializados. O assunto raramente chega a ser debatido verdadeiramente. O que ocorre, na maioria das vezes, é a troca de ofensas por pessoas que acreditam e pessoas que não acreditam na apropriação cultural.

Ao falarmos desse assunto, temos como hábito focarmos apenas no caso atual, apenas na pessoa que cometeu ou sofreu algo por este motivo, porém, a base de quase tudo que nos cerca, e que pauta nosso consumo – e o modo de consumo -  hoje, é a indústria cultural. 

O que é a Indústria Cultural?

O termo criado pelos membros da Escola de Frankfurt, Theodor Adorno e Max Horkheimer, tem como finalidade, designar a situação da arte na sociedade capitalista industrial. Para Adorno, na Indústria Cultural, tudo se torna negócio. O que antes era um mecanismo de lazer, ou seja, uma arte, agora se torna um meio eficaz de manipulação, de obtenção de lucro. Portanto, podemos dizer que a Indústria Cultural traz consigo todos os elementos característicos do mundo industrial moderno e nele exerce um papel específico, que é ser portadora da ideologia dominante, a qual confere sentido a todo o sistema hegemônico.

Camuflando as forças de classes, a Indústria Cultural se apresenta como único poder de dominação e difusão de uma cultura do servilismo, da subserviência. Ela torna-se o guia que orienta os indivíduos em um mundo caótico e, assim, desativa, desarticula, qualquer revolta que poderia ocorrer contra seu sistema. Portanto, a Indústria Cultural acaba por desmobilizar ou impedir qualquer mobilização crítica, ao promover uma pseudofelicidade ou satisfação aos indivíduos. Ela os transforma em seu objeto e não permite a formação de uma verdadeira autonomia consciente.

É quase impossível romper com tal sistema produtivo, ao englobarmos a sociedade como um todo, apenas um pequeno número consegue uma real evasão. E os que se submetem esse modelo de indústria nada mais fazem que falar a mesma coisa, mas de maneira diferente. 

É importante frisar que a grande força da Indústria Cultural se valida por como proporciona ao homem necessidades. Porém, não falamos de necessidades reais, básicas para se viver dignamente (casa, comida, lazer, educação, e assim por diante) e, sim, as necessidades do sistema vigente (consumir incessantemente). Com isso, o consumidor viverá sempre insatisfeito, querendo, constantemente, consumir e o campo de consumo se torna cada vez maior.

Moda e Apropriação cultura

Segundo Orson Camargo, “Moda pode ser definida como modelos de comportamento irracionais e transitórios que tendem a repetirem-se em sociedade cujos membros anseiam por um reconhecimento de status ao se expressarem por meio da imitação da elite.”, ou seja, tudo girará em torno do que a elite, do que os mais favorecidos da nossa sociedade têm, ou desejam ter.  Ela unirá as pessoas de classes mais altas, os segregando, os diferenciando das demais classes sociais. A elite inicia uma moda, e a massa a imita, em um esforço de eliminar as distinções externas de classe. Porém, essa mesma elite abandonará a moda por outra nova moda, quando a mesma já for acessível as demais classes sociais.

A moda – a elite -  tem o poder de definir o que será tendência, o que chegará a grande população. A camisa que o homem menos antenado a tudo que ocorre na moda, irá comprar em uma loja de departamento, sofre grande influência das cores e cortes que foram vistos em grandes passarelas anteriormente.

Ao debatermos sobre moda e apropriação cultural, temos que lembrar que tudo que é rentável, que gera lucro, será usado. E para que isso seja possível, todo significado, toda simbologia que envolve a peça, será esvaziada. A indústria da moda vale nada menos que US$ 2,4 trilhões, e tem crescimento de cerca de 3,5% ao ano. E um estudo sobre o mercado da moda mundial evidenciou uma mudança de hábito de consumo em todo o mundo. Hoje o consumidor é mais antenado e sofisticado, tendo pressa para que todos os seus anseios de consumo sejam prontamente saciados. Atualmente, logo após os desfiles, as grandes marcas já disponibilizam a venda todas as peças apresentadas nas lojas.

Por fim, vivemos em uma sociedade capitalista, onde o dinheiro, o lucro, imperará sobre qualquer cultura, qualquer raça ou religião. O maior erro não é o do indivíduo que usa uma peça que remeta, ou pertença, a alguma cultura (muita das vezes, o mesmo nem conhece o significado real do que está usando), mas sim da indústria, que esvaziou todo e qualquer significado da peça.

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