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A vida de um coveiro

Na capela da funerária se repete o cenário de todos os dias: enquanto alguns cumprem o papel dos que choram, outros têm a áspera missão de tentar consolar. No entanto, a poucos metros dali, o riso fácil comanda a atividade de quem ganha a vida com a morte. Entre a abertura de uma cova rasa e os reparos em um suposto sepulcro, os coveiros do Cemitério Municipal de Petrópolis conversam como quem remexe a terra do canteiro de casa.

O suposto sepulcro, que na verdade é uma cova rasa rodeado com placas de concreto, é de uma tia de Marcelo, coveiro há quinze anos no cemitério. E que, aproveitando os poucos sepultamentos do dia, resolveu arranjar uma forma de facilitar a identificação da cova em meio aos muitos buracos cavados no morro ao lado do cemitério. “A gente sempre tem muita coisa pra fazer, mas como só temos um enterro hoje de tarde resolvi chamar o Moisés – outro coveiro com mais de vinte anos de profissão – para me ajudar a colocar essas placas na cova da minha tia”, afirmou Marcelo enquanto montava os pedaços de concreto que foram encontrados em um canto do cemitério.

Cova rasa
 
Enquanto Marcelo contava o como iria pintar o novo sepulcro, Carlos Henrique o interrompeu aos gritos. “Vocês viram o carro que caiu no rio em frente ao Petro? Do jeito que foi, o motorista deve vir pra cá”. Depois de ser ignorado ele voltou a cavar a cova 306 A.

Carlos Henrique tem quarenta e três anos e há apenas quatro é coveiro. “Eu antes trabalhava em supermercado, mas eu passei no último concurso em 2011, fui chamado em 2013,como aqui ganha um pouquinho mais e tem insalubridade, eu preferi vir pra cá”, disse ele enquanto preparava uma nova cova para o sepultamento que aconteceria daí a algumas horas. Disse também que cavar covas é a pior função do coveiro, “principalmente com essa chuva” – afirmou.

A cova rasa é a opção mais barata de enterro em Petrópolis. Custando apenas 23 reais, esse é o destino daqueles que não tem uma sepultura familiar ou que tem a falta de sorte de morrerem em um dia que todas as gavetas estão ocupadas. Os buracos, tendo profundidade próxima a um metro – medida bem parecida com os chamados sete palmos de terra – são cavados ao longo do morro, que começa dentro do cemitério e termina na comunidade carente do Chapa 4, o que faz do cemitério rota para os moradores.

Após fincar mais uma vez a pá na terra molhada da chuva, Carlos percebeu que tinha algo ali. “Esse aqui usava aparelho!” afirmou com a mesma naturalidade que pegava o osso da mandíbula do defunto. Depois de arremessar para o lado os dentes metálicos, Carlos explicou que “quando se passa três anos e a família não vem procurar, nós temos a autorização de tirar e enterrar em outro lugar”.

Quanto mais pás de terra iam sendo tiradas mais o cheiro ficava forte e os mosquitos se aglomeravam. “Isso é uma coisa que não tem como se acostumar”, continua ele com cara de nojo. “Eu já me acostumei com tudo, nem ligo em ver os corpos na exumação, até porque antes de vir trabalhar aqui eu assiste a uns vídeos no Youtube pra me preparar, mas o cheiro não dá.” Enfatizou o coveiro enquanto arrancava o forro do caixão que ainda não tinha se decomposto.

Mesmo depois de três anos a sete palmos do chão, alguns objetos permaneciam intactos. Carlos os retirou com uma das mãos, pois perdeu o outro par da luva. Conforme os objetos iam sendo retirados da cova uma pilha de destroços crescia ao lado, e já contava com um crucifixo, o forro do caixão, enfeites em formato de flores, pedaços do caixão e um crânio, que foi lançado e permanecia no topo, como em um roteiro shakesperiano.

A perda do pai

Enterrar uma pessoa ou manusear os restos mortais de um desconhecido é algo comum para Carlos. No entanto, ao perder seu pai devido a um câncer no pulmão, o coveiro viveu a experiência de sofrer com aquilo que ele vê todos os dias. “Quando eu o vi lá no velório foi bem difícil, eu sofri muito. Mesmo eu trabalhando aqui, quando é com a gente é pior.” Disse ele dando uma pausa no preparo da cova. Mas procurando se consolar afirmou que “foi melhor pra ele, ele já não estava nem andando mais”.

O que pôde consolar Carlos foi que aos oitenta e quatro anos o “Seu” Luis pode descansar e ainda “teve a sorte de no dia ter uma gaveta disponível”. Mas, ao colocar o rádio com a pregação de um pastor da Igreja Universal, o coveiro se questiona: “eu escuto tanta cura que eu fico pensando, se eu frequentasse a igreja talvez meu pai pudesse ter sido curado”. Mesmo pisando em cima de um corpo, o coveiro que também era filho, alimenta a esperança na vida.

Preconceito

“As pessoas não costumam gostar muito quando eu falo que sou coveiro”. Deixa claro o preconceito que sofre e logo começa a contar um caso: “Uma vez fui à casa de uma conhecida e lá estava um advogado amigo dela. Fiquei conversando com ele por bastante tempo, mas quando a dona da casa falou pra ele que eu era coveiro ele logo arranjou um álcool pra passar na mão”, contou enquanto dava de ombros e afirmava não ligar.

Carlos tem três filhos, dois do primeiro casamento e um do segundo. Ele afirma que sua família aceita bem a sua profissão, “mas ninguém nunca veio me visitar no trabalho” diz com uma risada. “A única pessoa que não gosta é a minha mãe, ele sempre pergunta por que eu não arranjo outra coisa. Acho que ela tem medo!” – conclui.

Sepultamento

Depois de remexer o corpo, que passados três anos ainda se encontra com muitas partes não decompostas, Carlos decide não retirá-lo devido ao trabalho que esse processo daria. O coveiro joga uma fina camada de terra sobre o defunto sem cabeça e decide fazer o sepultamento por cima.

Faltam apenas trinta minutos para o enterro, então Carlos desce para chamar o coveiro que faz dupla com ele. Enquanto bebe água percebe o cortejo vindo e sobe com Marcão para preparar as cordas. A família chega com o caixão e se empoleira morro acima. Pisando em covas e fazendo com que o caixão pareça um brinquedo na mão de uma criança, os familiares tentam vencer o desafio da falta de estrutura do cemitério. Conhecendo bem as trilhas por cima das covas, Carlos ajuda a família a trazer o defunto para a sua última morada. E mal sabem eles que em baixo dele já tem um inquilino que perdeu a cabeça devido à precariedade do serviço.

O choro e as pétalas jogadas são interrompidos pela vontade de sair do meio daquela lama fúnebre. Cerca de dois minutos depois de o defunto ser descido até o seu fim último já não havia mais ninguém além dos dois coveiros que se apressavam com as pás de terra.

Corpo enterrado e mais um dia terminado na vida dos empregados da morte. Entre as lápides os coveiros descem com passos acelerados enquanto Marcão parece cantar o desejo dos familiares que choram. “Eu preciso te falar, te encontrar de qualquer jeito...”


Por Vicente Alves

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