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O engraxate da Halfeld


- Em outubro farei uma festa aqui no calçadão e você está mais que convidado!
 

- Uma festa?

- Sim, pois pela graça de Deus esse ano faço 10 anos de profissão.


Depois de passar 10 anos no mesmo ponto da Rua Halfeld, Paulo Campos permanece firme em seu posto como uma figura histórica, não uma história de 10 anos, mas a um personagem vindo direto do início do século XX para ilustrar o tumultuado centro de Juiz de Fora.

Sentado ao lado da engraçada cadeira de assento alto com toda a sua elegância de quem trabalha para a elegância alheia, o engraxate de 56 anos, Paulo faz questão de usar calça social, jaleco por cima da camisa muito bem passada e aquele que é o mais importante, pois serve de propaganda para o seu trabalho: o sapato.

O ofício do engraxate resiste ao tempo assim como o brilho do sapato de Paulo resiste à poeira da Halfed. Com o passar dos anos, a profissão foi perdendo espaço por ação de sua grande inimiga, a moda. Restando apenas o apoio da sua grande aliada, a burocracia empresarial. Afinal, quem, além dos empresários, advogados e engraxates, usa sapatos no dia a dia?

No entanto, para os poucos que persistem nos sapatos, por apenas sete reais poderá encontrar no divã do psicólogo da graxa uma boa conversa, um conselho e por vezes os únicos minutos de silêncio de todo o dia. Sentar na cadeira do engraxate significa muito mais do que brilho nos sapatos. Ocupar o alto assento dá a oportunidade de observar a lugar mais eclético de todo o mundo: a rua. Aquilo que é rotina para aquele para o homem da graxa salta aos olhos do cliente. O mendigo que abraça seus cachorros, as manifestações sociais, o muambeiro que é preso, o hippie etc. E então, o usuário de sapatos tem a oportunidade de entender o mundo daqueles que dependem do local que ele desfila seus sapatos brilhantes todos os dias.

A relação de Paulo com o cliente gerou uma teoria que foi sendo desenvolvida ao longo dos anos. No primeiro momento existe o estudo do freguês, pois existem aqueles que são mais dados à leitura do jornal, outros preferem papear, outros querem o silêncio. Depois de uma primeira analise, é preciso agir de acordo com a abertura dada. Como bom fiel da Assembleia de Deus, suas conversas estão cheias de pequenas jaculatórias de louvor a Deus e agradecimento. O que não tem espaço em seu cotidiano de trabalho são as reclamações. Das 07h30min até às 16h30min, horário esse cumprido com fidelidade independente de qualquer coisa, Paulo não se permite reclamar, pois:

- De reclamações e problemas a freguesia já está cheia!

Até que a relação com os clientes se tornasse algo natural, Paulo passou por grandes dificuldades. Quando largou a profissão de decorador de interiores para ter uma rotina mais certa e mais tempo para a família, pensou que como engraxate seria mais fácil. Não foi o que aconteceu no primeiro ano de trabalho, tendo que passar dias a base de pão e água para obter algum lucro. Com o tempo a qualidade do trabalho e, segundo ele, a fé em Deus foram provendo dias melhores. Sendo que hoje ele conta com o preço mais alto do calçadão, mas mesmo assim mantém a fidelidade de uma gama de clientes.

Em sua briga com a moda, o engraxate percebeu que já que não podia vencer tal inimigo era preciso se juntar a ele, então desenvolveu um novo serviço: a manutenção de calçados. Passou a consertar sapatos femininos, colar tênis e oferecer um serviço diferente para o seu primeiro foco, os sapatos. Mas mesmo com todas as outras opções de atendimento, a preferida de Paulo continua a ser a graxa, pois só ela permite o contato mais intimo com o freguês e a oportunidade de fazer o que gosta.

Dentre todos os que frequentem a cadeira do morador da Nova Califórnia, são frequentes aqueles que vivem com sapatos para viver. Os advogados, vendedores, bancários, empresários são junto aos aposentados, que permanecem fieis ao coro, o sentido da resistência d profissão. Paulo não é o mais antigo profissional da graxa da Halfeld e nem o mais barato, ele é só mais um dos dez resistentes. O que o torna “o engraxate da Halfeld” é a necessidade por ter as mãos sujas para que os outros andem brilhando. Lidar com a parte mais imunda do outro é motivo de orgulho e agradecimento para Paulo.

Por isso, em outubro ele irá festejar com seus amigos e familiares no lugar que promove o seu sentido de viver. Na mesma rua em que os sapatos são sujos, ele tem a oportunidade de dar brilho e agora poderá festejar os anos de graxa com os seus.

Por Vicente Alves

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