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O Homem da Ponte


Uma escola da rede pública portuguesa que se diferencia totalmente das demais. Localizada há poucos quilômetros da cidade do Porto, a Escola da Ponte é aclamada por ter adotado um modelo que se tornou referência organizacional, pedagógica e metodológica para muitas escolas que buscam um ensino que foge ao comum.

Da pré-escola ao ensino médio, a Escola da Ponte permite um intercâmbio de conhecimento entre os alunos de todas as idades, já que não adota uma divisão por séries e os estudantes são livres para realizar trabalhos e pesquisas em grupos com quem quiserem. 

Em entrevista exclusiva,José Pacheco, idealizador do projeto, nos fala sobre a implementação, o modelo e os desafios gerados pela diferente iniciativa. O educador ainda fala sobre seus trabalhos e educação no Brasil.

Leandro Carneiro: O projeto da Escola Básica da Ponte nasce, em 1976, em Vila das Aves, no Porto. Como se deu o surgimento dele?

José Pacheco: Nos idos de 1976, eu estava quase a desistir de ser professor. Sentia que, “dando aula”, eu estava a excluir gente. Percebi que não devia continuar dando aula, mas eu não sabia fazer mais nada! A Ponte surgiu, talvez não por acaso, para me dar uma última oportunidade.

Era uma escola como qualquer outra, escola pública degradada, que albergava as chamadas “turmas do lixo”, maioritariamente constituídas por jovens de 14, 15 anos, que não sabiam ler nem escrever, e que batiam nos professores. Ali, encontrei duas pessoas, que faziam as mesmas perguntas que eu fazia: Porque dou aula tão bem dada e há alunos que não aprendem?

Foi, então, que aconteceu algo inusitado. Como quaisquer outros professores, éramos profissionais competentes. Porém, deparávamos com a falta de um compromisso ético com a profissão.

Se o modo com a escola funcionava negava a muitos seres humanos o direito à educação, a escola não poderia continuar a ser gerida desse modo. Se o modo como nós trabalhávamos não lograva assegurar a aprendizagem a todos os alunos, nós não poderíamos insistir nesse modo de ensinar.

Quando modificamos o modo, asseguramos a todos o direito de ser sábio e feliz. Começamos a receber alunos expulsos de outras escolas, alunos chamados “deficientes”, acolhíamos jovens evadidos de outras escolas, enfim!  Todos se transformavam e aprendiam. 

L.C.: Apesar de ser uma escola pública, ela nada se assemelha outras escolas da rede de ensino público português. Como ela funciona?

J.P.: Na Ponte de há 40 anos, as salas de aula foram substituídas por espaços de “área aberta”. Depois, deram lugar a aprendizagens em múltiplos espaços sociais, num anúncio da possibilidade de conceber novas construções sociais de aprendizagem.

No edifício da escola, nas praças, nas empresas, nas igrejas, nas bibliotecas públicas e centros culturais, passamos a contemplar um novo modo de desenvolvimento curricular, duas vias complementares de um mesmo projeto: um currículo subjetivo, nem projeto de vida pessoal, a partir de talentos cedo revelados; um currículo de comunidade, baseado em necessidades, desejos da sociedade do entorno.  

São muitos e diversos os caminhos de mudança, sendo urgente que os educadores compreendam o que significa o termo “currículo”. Que, por exemplo, os professores não percam tempo a tentar ensinar fora de tempo o que é um "dígrafo", ou expressões como "sujeito nulo subentendido", o que são "plantas epífitas", ou em que consiste um "ato elocutório diretivo"?

Quando fui aluno de escola "tradicional", gastei um tempo precioso a decorar os afluentes da margem esquerda de rios e de outras “lengalengas” que, agora, me ocupam a memória de longo prazo. Não me fizeram mais sábio, nem mais feliz.

É preciso experimentar um novo modo de organização, em equipes de pessoas autônomas e responsáveis, todas cuidando de si mesmas e de todo o resto, numa escola realmente “pública”. Não negando o potencial da razão e da reflexão, juntar-lhe as emoções, os sentimentos, as intuições e as experiências de vida. E uma escuta que, para além do seu significado metodológico, terá de ser humanamente significativa e de assentar numa deontologia de troca “ganha-ganha”.

Que se perceba que toda a prática tem teoria subjacente, que não há prática sem teoria. E que a fundamentação teórica do ato de educar seja multirreferencial, numa práxis coerente com necessidades educativas locais, escapando a modas e fundamentalismos pedagógicos. A aprendizagem não está centrada no professor, nem no aluno, mas na relação. E que da qualidade da relação depende uma boa qualidade educacional.

As escolas poderão desenvolver um currículo mais adequado às novas competências e exigências do século XXI. A velha escola há de parir uma nova educação. Mas as dores do parto serão intensas, enquanto as “naturalizações”, as “certezas”, as crenças ministeriais, a tecnocracia e a burocracia continuarem a prevalecer em domínios onde deveria prevalecer a pedagogia.

Creio que ainda não é consensual, mas é incontornável. A Ponte provou a possibilidade de uma escola onde todos aprendam e sejam felizes. Operou uma ruptura total com o velho e obsoleto modelo educacional, que ainda prospera na maioria das instituições. Garante o direito à educação, que a maioria delas recusa. E numa escola da rede pública!

Os efeitos do projeto, que relatórios de comissões de avaliação independentes atestam, são bem melhores do que os obtidos pelas escolas ditas “normais”. São produto de uma avaliação isenta, e atestam a elevada qualidade das aprendizagens realizadas pelos alunos. Diz-nos o último dos relatórios de avaliação que, quando transitam para outras escolas, os alunos da Ponte alcançam melhores notas do que os alunos de outras escolas conseguem alcançar. E, se no domínio cognitivo isso acontece, muito mais significativos são os níveis de desenvolvimento sócio-moral. É grande a preocupação com a vertente ética, e sabemos que o desenvolvimento estético anda ao lado do desenvolvimento cognitivo, sendo mutuamente influenciados. Não fragmentamos os saberes: estudos realizados com adultos formados ao longo dos últimos 40 anos demonstram que todos os nossos ex-alunos são pessoas socialmente integradas e realizadas. Talvez possa acrescentar que a Escola da Ponte provou que é possível outra educação, aliando excelência acadêmica à inclusão social. 

Para que outras provem a possibilidade de novas construções sociais de aprendizagem, apenas será necessário que as escolas sejam geridas por critérios de natureza pedagógica. A impunidade dos burocratas tem sido mantida pelo ensurdecedor e obsceno silêncio dos pedagogos.

L.C.: O senhor possui um livro, lançado há alguns anos, chamado "Dicionário de Valores". Quais são os principais valores da Escola da Ponte?

J.P.: A matriz axiológica da Ponte tem a Responsabilidade, a Autonomia e a Solidariedade como valores centrais.

L.C.: Você vê alguma dificuldade inicial dos alunos para entender o método da escola? E por parte dos professores, há alguma dificuldade ao adentrar ao projeto?

J.P.: Os alunos não manifestam rejeição, ou dificuldade de entender, ou aceitar novos modos de aprender. São os professores quem sentem dificuldades, por via de uma formação precária e do padecer da síndrome do vira-lata.

Os professores brasileiros não precisam de ir ao estrangeiro procurar soluções. Elas estão cá dentro. Quais são hoje os autores que influenciam as escolas? Vygotsky, Piaget? Onde estão os portugueses? Nunca vi Agostinho da Silva numa sala de aula.

As dificuldades enfrentadas pelos professores poderão ser debeladas, se quem os forma não lhes queiram transmitir teoria avulsa e promovam a reflexão sobre o que lá por fora acontece. A Finlândia extinguiu a Inspeção de Ensino e os exames. Os colégios Jesuítas da Catalunha acabaram com as aulas.

A Europa do Norte e os Estados Unidos são pródigos na divulgação de absurdos e a última “inovação” veiculada pela grande mídia foi a da aula invertida. O que vem a ser isso? Nas palavras do seu “criador”, flipped classroom, ou sala de aula invertida, é o nome que se dá ao método que inverte a lógica de organização da sala de aula. Os alunos aprendem o conteúdo no aconchego dos seus lares, digerindo vídeo-aulas e games (a chamada aula-cassino). Na sala de aula, fazem exercícios.

Diz-nos a “mídia especializada” que o peer instruction foi inventado há cerca de vinte anos atrás. Há vinte anos? Há quase um século, o Vygotsky nos dizia que a aprendizagem é resultante de um processo interativo e considerava a existência de uma ZDP, que representa a diferença entre o que o aprendiz pode fazer individualmente e aquilo que é capaz de atingir em colaboração com outros aprendizes. Também sabemos que, há mais de trinta anos, o Papert escreveu sobre o assunto. E que, há cerca de quarenta anos, o trabalho de pares era prática comum no cotidiano de uma escolinha de Portugal, muito antes de um professor de Física o ter “inventado”.

L.C.: Uma das coisas que mais chama atenção na Escola é o fato de que estudantes de diversas idades aprendem juntos. Em contrapartida, em algumas escolas, podemos perceber que existe uma espécie de "rixa" entre alunos de séries diferentes. Como é a relação dos alunos mais velhos com os mais novos, e vice-versa, na Escola da Ponte?

J.P.: Ninguém aprende com quem tem a mesma idade, ou os mesmos saberes. Aprende-se na heterogeneidade e na criação de vínculos. A relação entre os jovens é caraterizada pela entreajuda. À semelhança do que acontece com os professores da equipe de projeto, que também têm idades diferentes.

L.C.: Quais são os benefícios do modelo de ensino da Escola da Ponte para as crianças?

J.P.: Reflitamos sobre aquilo que nos diz a Constituição da República. Ela consagra o direito à educação, diz-nos que é dever do Estado garantir a educação a todos os portugueses. Se, do modo como trabalham, as escolas portuguesas não asseguram a todos esse direito, as escolas terão o direito a continuar a trabalhar desse modo?

Na Escola da Ponte, a decisão de mudar foi de origem ética. Encontrei jovens analfabetos, que tinham sido ensinados do modo que eu antes ensinava. Se eu continuasse a trabalhar do modo como, até então, havia trabalhado, aqueles jovens continuariam sem saber ler. Tomei consciência de que, dando aula, eu não conseguiria ensiná-los.

Na época, nem da existência de um Piaget tínhamos conhecimento. Agimos por intuição pedagógica, movidos pelo amor que tínhamos (como qualquer professor tem) pelos alunos.

L.C.: Tudo que foge à regra é condenado por muitos. A Escola da Ponte sofreu ou sofre algum tipo de represália?

J.P.: Quando uma escola começa a mudar percebe que o maior aliado do professor é outro colega e o maior inimigo é o professor da escola ao lado. Coisa terrível que experimentei. E me magoa muito. É uma mágoa muito grande que eu mantenho ainda hoje, 40 anos depois do início do projeto da Escola da Ponte. Quando me perguntam algo sobre a história da Escola da Ponte, respondo que é uma história de resiliência e de sofrimento. Mais do que as mudanças na pedagogia, foi a grande capacidade de resistir às frustrações e à maldade que suportou o projeto. E, também, a intuição pedagógica e o amor pela infância.

Chamaram-nos loucos, lunáticos e outros epítetos que, por pudor, aqui não irei reproduzir.
Quando fiz as primeiras intervenções públicas, mais do que dizerem que o projeto era um arroubo de jovem professor, diziam-me que, quando eu fosse mais velho, iria ganhar juízo. E os detratores agiram de forma violenta explícita. Um dia, talvez eu conte a história da Escola da Ponte. Ela foi feita de sofrimento e resiliência. No decurso de mais de quatro décadas, foram muitas as ações da maldade humana dirigidas contra a Ponte. Da destruição da nossa horta à destruição do hospital de animais, que as crianças cuidavam com tanto desvelo, ações levadas acabo por criminosos a soldo de políticos locais, que pintaram com o sangue das vítimas na parede da escola: “Morte ao professor”. Do lançamento de panfletos, na calada da noite, contendo acusações falsas, até à publicação de boatos em jornais. Do terrorismo verbal, via telefone, até à agressão física.

O sofrimento maior foi termos descoberto que muitos desses ataques eram provenientes de escolas próximas.

L.C.: Hoje o senhor mora no Brasil. Porque o senhor decidiu mudar para cá? Ainda possui vínculos com a Escola da Ponte? 

J.P.: Mantenho um forte vínculo afetivo com a Escola da Ponte. Não foi em vão que lhe dediquei trinta anos da minha vida. Mas é no Brasil que está surgindo a nova educação do mundo.

No Brasil, acompanho, direta ou indiretamente, juntamente com uma grande equipe, mais de 200 projetos dos quais cerca de 50 são de iniciativa particular, de universidades e escolas. Neles acolho os saberes eruditos e a sabedoria dos simples. Mas, também, os saberes contidos no riquíssimo espólio herdado de muitos e excelentes educadores, que nos precederam neste afã de tentar melhorar a educação. Paulo Freire, por exemplo, que eu considero continuar ignorado pelas escolas. O que Agostinho, Anísio, Azevedo, Nilde, Darcy, Florestan, Lourenço, Lauro e tantos outros produziram ainda está por ser lido e compreendido. Me espanta ainda haver praticistas, que creem poder prescindir dos seus teóricos, e que vão procurar no exterior modas que não levam a lugar algum.

L.C.: Aqui no Brasil, o senhor é coordenador do programa Eco Habitare. Qual é o objetivo dele?

J.P.: O objetivo central é o de produzir protótipos de novas construções sociais de aprendizagem, que possam substituir o velho modelo e garantir o direito à educação de todos os cidadãos.

L.C.: O programa Eco Habitare possui o projeto de formação Escolas em Transição. Como ele funciona?

J.P.: Funciona com base em modalidades de formação do século XXI: o círculo de estudos, a oficina, o projeto de formação. Colocamos rigor e atualidade nas nossas intervenções. Que rigor e que exigência existem num modelo educacional, no qual alunos do século XXI são “ensinados” por professores do século XX, que recorrem a práticas oriundas do século XIX?

Rigor e exigência existirão em escolas onde se dê, a todos, condições de acesso, e a cada um, condições de sucesso. E é incontornável falar do nó górdio da mudança das práticas escolares: a formação de professores.

A formação de professores continua imersa em equívocos, continuamos cativos de um 
modelo de formação cartesiano, que impede um re-ligare essencial. Sabemos que um formador não ensina aquilo que diz, mas transmite aquilo que é, veicula competências de que está investido. Mas, ainda há quem ignore a existência do princípio do isomorfismo na formação, quem creia que a teoria precede a prática, quem considere o formando como objeto de formação, quando deveria ser tomado como sujeito em autotransformação, no contexto de uma equipe, com um projeto. Prevalecem práticas carentes de comunicação dialógica, culturas de formação individualistas, de competitividade negativa, de que está ausente o trabalho em equipe.

L.C.: O senhor disse, recentemente, que "a escola atual está fadada ao fracasso". Na sua opinião, o modelo adotado pela Escola da Ponte, seria uma boa forma de reverter essa situação?

J.P.: É uma das possibilidades. Mas muitas outras já foram concebidas. As escolas brasileiras transformar-se-ão quando, através da referência a uma matriz axiológica, a uma visão de mundo e sociedade traduzidas num projeto, operem rupturas com uma tradição de educação hierárquica e burocrática. Quando ousarem, com prudência, reconfigurar as suas práticas, assumir formas específicas de organização do trabalho escolar, em dispositivos de relação, nas atitudes do dia-a-dia, que viabilizem práticas de educação integral. Quando as escolas cumprirem, efetivamente, os seus projetos político-pedagógicos.

Foto: Divulgação

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